domingo, 23 de outubro de 2016

Taverna - 3 - Explicações






Quando um vampiro poderoso possui planos de aumentar seus poderes, alguém precisa pará-lo. Acompanhe a história dos irmãos Styrman e de seu envolvimento com o mundo sobrenatural.


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TAVERNA
Parte 03 – Explicações



Aquele que pergunta pode ser um tolo por cinco minutos. Aquele que deixa de perguntar será um tolo para o resto da vida”.
Provérbio chinês.


Resumo do capítulo passado: João Victor consegue capturar uma vampira perigosa (Bárbara Andrade); Leonardo e Alessa se disfarçam e fazem uma visita ao Sr. Simis Solteirus e sua esposa Jocasta, enquanto Nooa Styrman sai da casa dos dois com a pequena Laura.


Segunda-feira. 3 horas da manhã.
Riverview. Mansão Duquesa de Savoy.


Daniel acordou numa espécie de cela.
Havia uma cama, uma pia, um espelho, um vaso sanitário e até um cestinho de lixo. E nada mais do que isso. Então ele se desesperou! Onde estaria?!!




Havia janelas na cela! Janelas em uma cela!!!
Começou a gritar, a bater no vidro. Gritava o mais alto que podia.



Ele conseguia ver a casa de Tuuli pela janela. Alguém precisava ouvi-lo! Alguém precisava ouvi-lo!





Daniel Wang gritava com toda a força de seus pulmões, quando tomou um susto ao ouvir uma voz com um tom frio e forte que parecia vir dali de perto:
- Se eu fosse você, parava de gritar. A cela inteira é à prova de som. Os vidros da janela são especiais, inquebráveis. E você enxerga o que está lá fora, mas lá de fora ninguém vai conseguir te ver. Fora que você está me irritando com esses berros descabidos. Você está atrapalhando minha leitura.
A voz era masculina, segura e tinha um leve tom de irritação.


Daniel foi se aproximando e notou as grades da cela onde se encontrava. Aproximou-se e, de lá, pôde ver o dono de tal voz: era um homem jovem, de longos cabelos pretos. Ele lia um livro sentado numa poltrona.




- Quem é você?!! Como vim parar aqui?!! – O garoto estava desesperado.
- Meu nome é Tuomas. Você foi trazido para cá. – Ele respondeu friamente, sem tirar os olhos do livro.


- O que estou fazendo aqui? Por que estou aqui? O que você quer comigo?
- Um amigo meu o trouxe aqui. Você está nesta cela porque será usado como sacrifício em um ritual. E eu? Eu não quero nada com você. Mas sim meu tutor.


Daniel empalideceu diante das respostas que o homem lhe dera. Ele estava tão aterrorizado que não conseguia responder aos absurdos que havia acabado de ouvir.


Então passos foram ouvidos. Vinham da escada.




- Finalmente. – Tuomas falou aos dois que chegaram, sem nunca tirar os olhos do que estava lendo. – O garoto acordou e atrapalha minha leitura com suas perguntas dispensáveis.


- Gunnar. Gunnar está pronto. – O corpulento homem falou, com uma voz grossa e grave.
- Ok, Sr. Vocabulário Limítrofe. – Tuomas falou para o grandalhão. Ele sempre fazia troça com a maneira com que Petri se expressava, mas esse geralmente não entendia, pois sua inteligência era um pouco limitada.
- O que quis dizer com isso? – O grandão perguntou, com a cara já fechada.
- Ele quis dizer que precisamos nos apressar, Petri. – A mulher disse, sorrindo.


- Ótimo. – Tuomas fechou o livro, levantou-se e começou a descer na frente.


- Petri, leve o garoto. – A mulher disse, com uma voz tão aveludada que Petri não se permitiria nunca negar um pedido seu ou contrariá-la de alguma maneira. – Irei na limusine com Tuomas, se não se importar, meu querido amigo.
Então ela desceu atrás do vampiro de longos cabelos pretos.





Sunset Valley. Mesmo dia (mas à noite).
Segunda. Quase 20 horas.


As perguntas de Laura já tinham começado, quando Nooa achou melhor que saíssem do restaurante “O Pequeno Bistrô Corso”, pois o lugar estava cheio e o teor da conversa era confidencial. Sentaram-se do outro lado da rua.





Faltava uma hora e poucos minutos para Nooa se encontrar com o vampiro Ichiro, o representante de Corann.
- Vai. Continua com as perguntas. – Ele disse.
- Eu queria primeiro que você me explicasse sobre o Despertar.
- Bem, o mundo não é aquilo que achamos que ele é. Pelo menos não uma parte dele. Há coisas que as pessoas não conseguem enxergar. A mente delas não aceita a existência de certas coisas, de criaturas sobrenaturais, então as bloqueia. Dizemos que o Desperto é aquele que consegue enxergar o que está por trás do “véu” da realidade, entende?
- Por exemplo, as pessoas bloqueiam a existência dos vampiros, não é isso?... – Ela o olhou, séria.
- Isso. As pessoas pensam neles como criaturas que não existem, como ficção. Então, se elas veem um deles, suas mentes bloqueiam a realidade e elas apenas o enxergam como um Sim qualquer, o que é uma maneira de manter o mundo delas “normal”. Elas não veem porque simplesmente elas não desejam ver. Já os Despertos veem essas criaturas e sabem que elas são diferentes dos Sims normais, seja pela coloração da pele, pelo brilho maligno nos olhos, pelo cheiro de carniça que alguns exalam, etc.
- Então todo Caçador é um Desperto?
- Todo Caçador é um Desperto, mas nem todo Desperto é um Caçador, pois esse pode não ter sido encontrado por nossa Organização.


- E como vocês me encontraram?
- Temos agentes que possuem a “visão” e cujo trabalho é encontrar os Despertos. Foi assim que um deles encontrou você.
- E o que faz alguém “despertar”?
- Não sabemos o que faz algumas pessoas despertarem e outras não. Um dia acontece! Ou pode nunca acontecer para alguém. Raras são as pessoas que despertam, entende? É como aconteceu com você, que um dia estava olhando as estrelas no seu telescópio e pá! Você simplesmente sentiu que o mundo estava diferente para você. Então você passou a enxergar as criaturas sobrenaturais nas ruas.
- E o que é o “Manto”?
- É uma magia utilizada por vampiros poderosos. Essa magia faz com que todas as lembranças sobre alguém sumam da mente das pessoas que a conheciam. É como se aquele Sim nunca tivesse existido. Até documentos físicos e digitais sobre aquela vítima desaparecem! Mas não para um Desperto. O Desperto sempre se lembrará de quem desapareceu para os outros. E essa magia não atinge as bases dos Caçadores e nem funciona contra os Despertos, por isso mantemos registros de todos os Sims que existem nos computadores de nossos quartéis-generais, pois se alguém desaparece dessa forma e é esquecido por todos, já sabemos que foi vítima de um vampiro.
- Ok... – Laura disse, pensativa. – E a pele dos vampiros é gelada, Nooa?


- Sim. Ela é fria. Mas só os Despertos notam sua coloração e sua temperatura verdadeiras. O máximo que pode acontecer a uma pessoa comum perto de um vampiro é ela sentir um calafrio e uma sensação ruim vinda da criatura. Geralmente são aqueles Sims mais sensíveis ou que possuem um grau mais elevado de empatia que conseguem sentir o mal que emana dessas “pessoas”.
- O que é “empatia”, Nooa?
- É a capacidade que uma pessoa tem de se colocar no lugar do outro, de se identificar com o outro.
- Então nós somos o “lado do bem” e as criaturas sobrenaturais são o “lado malvado”?...
Nooa riu:
- Respondendo de forma simplista, é isso aí. Pelo menos eu nunca vi um vampiro que tivesse um mínimo de respeito pelos Sims.
- Mas se somos o “lado do bem”, nós não deveríamos tentar dar uma chance para eles?
- Olha, Laura, vou tentar te explicar isso de uma maneira bem direta e quero deixar bem claro que essa é minha visão da coisa, ok? O “Bem” e o “Mal” são conceitos que foram muito deturpados em nosso mundo. O “mal” nos fez acreditar que era “errado” combater o mal com a força, que violência gerava apenas violência, que o correto era “oferecermos a outra face” e suportarmos o mal com nossos corações para que nossas almas fossem salvas.
- Mas não é isso o correto?...
- Olha, Laura,... Há demônios soltos em nosso mundo. Eles assassinam, estupram, abusam de menores, sequestram, torturam, entre outras atrocidades. A maioria deles é um Inumano, Laura.


- Inumano?
- É como chamamos todas essas criaturas sobrenaturais: vampiros, lobisomens, fantasmas, múmias. São os Inumanos. E há Inumanos que, às vezes, não sabem ainda de sua condição como monstros, pois aceitaram o mal como algo natural. Simplesmente precisam matar, trucidar, fazer o mal, sem nem saber explicar o porquê dessa sede de violência. Mas nós, Caçadores, os enxergamos como eles são: eles são criaturas malignas que precisam ser destruídas. São monstros que, se não forem eliminados, continuarão matando e machucando os outros. E o papel dos Caçadores é eliminá-los. A guerra traz a paz. Uma não existe sem a outra. Se você não elimina uma praga, você é destruído por ela.


- Mas, Nooa, e por que o mundo não está melhor?... Vocês andam eliminando poucos Inumanos?
- Não, Laura,... – Ele olha para ela com um olhar meio triste. – O problema é que o número de Caçadores diminuiu muito. E o de Inumanos aumentou. Eles contam com a proteção das crenças que eles mesmos espalharam entre os Sims. Crenças que geralmente os protegem de uma punição mais severa, como a Pena de Morte. Crenças que fazem todos acreditarem que o único caminho para o bem é sentar e rezar para que o Grande Will Wright livre nosso mundo do mal. Crenças que dizem que devemos “perdoar” para sermos “perdoados”. Crenças que ignoram que o nosso maior juiz não é o Grande Sim Wright, mas nossa própria consciência. Crenças que ensinam que devemos dar uma chance até para aqueles que não a merecem: aqueles cujos crimes são abomináveis.
- Então você está me dizendo que é errado rezar para o Grande Will Wright?
- Não, Laura. Não é. O errado é esperar que ele resolva nossos problemas quando ele nos deu tudo para que possamos fazer isso. O errado é o óbvio continuar sendo ignorado e, por isso, pessoas inocentes terem fins horríveis nas mãos dos demônios.
- Nooa, e o que é o óbvio que está sendo ignorado?
- Laura, se existe, você acha que o Grande Sim permite monstros em seu paraíso?
- Não... Caso contrário não seria um paraíso.
- Então você entende agora o porquê de nosso mundo às vezes parecer um inferno?





Naquele mesmo dia (mais cedo).
Segunda-feira. 03h30min da manhã.
Riverview. No castelo particular de Gunnar.


Petri havia levado o garoto, de carro, para o castelo.
Lá, obrigou o garoto a entrar numa banheira velha, estrategicamente colocada no chão sobre uma piscina protegida por um vidro especial. Além de sentir o cheiro de sangue que emanava da velha banheira, Daniel podia perceber também que ela não havia sido limpa de maneira satisfatória.


Tudo já estava preparado para o ritual que seria feito ali.
Uma porta à esquerda de Daniel foi aberta.
Um homem loiro, alto, imponente, adentrou o aposento, seguido pela mulher e pelo homem que tinham falado antes com Wang.
Posicionado de frente para o menino, o loiro apresentou-se:
- Eu sou Gunnar, o Guerreiro. – Ele disse, com orgulho.


Daniel estava apavorado. Não conseguia nem falar.


- Você sabe lutar, rapaz? – Gunnar perguntou friamente para Daniel.
- Lutar?... L-l-lutar como?
- Lutar. Se souber lutar e me vencer, eu o liberto.


Wang começou a chorar baixinho:
- Não! Eu não sei lutar! Eu sou um adolescente! Tenho 16 anos!


- Eu já tinha enfrentado batalhas defendendo meu clã na sua idade. – Gunnar disse, ríspido. Ele então pegou um copo que estava sobre uma pequena mesinha no local. Começou a beber algo devagar, sentando na maior cadeira que havia na sala, uma espécie de trono. - Vê a porta que está atrás de você? – Ele perguntou.


Daniel olhou rápido. Era uma porta velha, a madeira estragada, mas possuía um belo vitral e tinha acabamento de metal, um metal meio avermelhado.
- Essa porta está trancada há séculos, por magia. E atrás dela, de acordo com pergaminhos antigos, está a liberdade para que meu povo volte a reinar neste mundo, de maneira definitiva. – Gunnar disse, saboreando a bebida.
- Seu... Seu povo?... – Daniel estava com muito medo.
- Sim. Meu povo.
- Quem, quem são vocês? Quem é seu povo? – O garoto juntava forças para fazer cada pergunta, pois aquele homem à sua frente, por mais educado que lhe parecesse, lhe transmitia pavor, uma sensação alarmante de que alguma coisa estava muito, muito errada.



- Que rudeza a minha. – Gunnar disse. – Ainda não lhe apresentei aos outros. Esses são: Lucianna, Tuomas e Petri. – Ele disse, de forma educada. A voz de Gunnar era firme, alta, forte. Todo o conjunto de sua imagem fazia Daniel ter muito mais medo dele do que dos outros três.


Petri ligou a torneira da banheira, para enchê-la de água, e voltou para seu lugar.
- Vocês vão me matar? – A voz de Daniel quase não saiu quando ele resolveu fazer essa pergunta. Ao final dela, já estava chorando. – Eu não fiz nada! Eu não fiz nada contra vocês, contra ninguém!!! Por que estão fazendo isso? – Disse, em prantos.
A um sinal de Gunnar, Lucianna se aproximou do garoto e falou com uma voz muito suave:
- Acalme-se... Só queremos conversar...



E, inexplicavelmente, Daniel se sentiu mais tranquilo. Foi como se todo o pavor e o medo simplesmente tivessem desaparecido quando Lucianna falou com ele.


Gunnar então começou a falar:
- A porta atrás de você guarda o segredo que permitirá a meu povo voltar a andar sob a luz do sol novamente. E eu poderei governar meu reino em paz. A Ordem será trazida novamente ao seu mundo.
- Novamente?... – Daniel não estava entendendo.
- Responda-me, jovem: quantos livros você conhece, você já leu, sobre universos fantásticos, magias, mundos mágicos, criaturas mágicas? – Gunnar perguntou, olhando para ele.
- Muitos... – Wang respondeu, preocupado, vendo a água na banheira encher rápido. “Será que vão me afogar?”, ele pensou.
- Esses livros existem para que as lembranças desses mundos não fiquem apagadas em nossas almas... – Tuomas (o vampiro de longos cabelos pretos) falou, com a voz e a expressão carregadas de emoção. – Os autores contam em seus livros aquilo que suas almas, em outras vidas, em outros mundos, em outras dimensões, já vivenciaram. Foi a maneira que os espíritos terrestres encontraram para manter pelo menos um elo mínimo entre este mundo e os outros.


- Antigamente a Terra possuía portais abertos para esses mundos mágicos. – Lucianna continuou. - Mas durante as batalhas entre os Æesires, que somos nós, e os Rebeldes, que gostam de se chamar “Caçadores”, a maioria dos portais foi destruído.
- A divergência era sobre a visão que temos do mundo. Nós, a raça chamada Æesir, acreditamos que os mais fracos devem obediência e respeito incontestáveis aos mais fortes. Os “Caçadores”, bem,... – Gunnar sorriu, levantando-se. – Eles são a escória, aberrações cuja existência é motivada pela sede do sangue de meu povo. Eles costumam nos chamar de Inumanos, sem nenhum respeito a nossa posição. E alguns Æesires, aqueles que não respeitam suas próprias tradições, preferem ser chamados de “vampiros”.


Despertos, Caçadores, Æesires, portais?...”, Wang pensava, confuso.
- E por que está me contando tudo isso? O que estou fazendo em pé nessa banheira? O que significa essa água aqui embaixo? – O garoto perguntou, aparentemente calmo, mas apavorado interiormente.
- Heng lançou uma maldição sobre meu povo: nos aprisionou na Terra, trancando os portais para nosso mundo e tornando a luz do sol o nossos ponto fraco. Como consequência disso, nossa magia ficou mais fraca, pois grande parte de nossos poderes vinha de nossa terra mãe. – Gunnar disse. – Por séculos vagamos tentando encontrar uma maneira de abrir uma passagem de volta. Se uma dessas passagens fosse aberta, todas as outras também seriam. Então um dia, Henrike sonhou com o portal vivo que chamava por seu nome. Henrike saiu de perto de sua família, contra a vontade deles, e após uma longa e incansável busca, encontrou Rhaluk, o portal, a grande criatura, aqui neste castelo.
- Portal? Você está falando daquela porta? – Daniel estava achando toda aquela história muito louca.
Os quatro riram da observação de Wang, que consideravam bem típica de Sims não despertos.
- Aquela não é uma “porta” comum. Aquela é Rhaluk. E o que você precisa saber, jovem, é que Rhaluk, como toda criatura, precisa ser alimentada. – Tuomas sorriu, com cara de satisfação.
- E você será seu alimento. – Lucianna disse.


- Por que eu? Por que eu? – Daniel tremia.
Mas essa pergunta eles não responderam, limitando-se a sorrir enquanto olhavam o desespero do garoto. O que eles não contaram era que ultimamente eles tinham sacrificado pessoas conhecidas de Tuuli, na esperança de que o Manto (a magia que fazia todos se esquecerem da vítima) não a atingisse, o que faria ela “despertar” como uma Æesir ao lembrar-se de alguém que desapareceu.
Inicialmente eles quiseram pegar as pessoas da família dela, mas logo descobriram que seria perigoso, já que o irmão da garota, Nooa, era um Caçador.
 Tuomas quebrou o silêncio:
– Então,... Não se preocupe. Você não fará falta alguma a ninguém. Lançaremos o Manto sobre o Mundo Sim, um feitiço Æesir que fará com que você, Daniel, seja esquecido por todos que o conhecem. – Ele sorriu.
- Chega de conversa. – Gunnar disse. – Lucianna, explique a Daniel como ele nos será útil.


- Daniel, querido, seu sangue passará dessa banheira para a água que está abaixo de você. – Lucianna começou a explicar. - Quando a criatura precisar de mais uma vida, a água voltará a ficar da cor que se encontra agora. E lhe daremos mais um Sim, mantendo-a viva.
O objetivo deles era que, um dia, Tuuli estivesse preparada como uma sacerdotisa Æesir. Ela era a única Æesir que poderia tocar o portal sem ser desintegrada.
Já Daniel estava aterrorizado. Ele pensava rápido, mas suas feições, seu rosto, sua voz, não conseguiam demonstrar seu estado de espírito.
- Se vou morrer, por que estão me contando tudo isso? Por que não me matam apenas e acabam logo com tudo? – Ele perguntou.
- Rhaluk exige que cada sacrifício saiba sua gloriosa e honrosa condição. – Gunnar respondeu. – Agora sim você está preparado para seu grande momento.
Os golpes que Gunnar deu no garoto foram rápidos e precisos. Daniel não teve chances de se defender.



E enquanto Gunnar atingia o garoto, entoava a magia que faria o mundo se esquecer da existência de Daniel, ele seria apagado da lembrança de todos. O nome dessa magia era “Manto”. E qualquer papel, fotografia, documento, qualquer vestígio de que Daniel havia existido, tudo desapareceria também. E Gunnar esperava que Tuuli, sua Angelline, sua irmã sacerdotisa Æesir, despertasse logo, pois ele já havia eliminado três pessoas que ela conhecia, em um período de sete meses, e até agora ela não tinha enxergado a realidade por trás do véu. E tantos desaparecimentos poderiam atrair a atenção de algum Caçador.



Assim, após a finalização do ritual, Petri começou a fazer sua parte: livrou-se da blusa, da calça e dos tênis da vítima e foi queimar tudo em uma das lareiras do castelo.
Tuomas, o mais cruel deles, foi esperar na sala ao lado pelo tempo necessário para a quantidade suficiente de sangue passar para o poço abaixo da banheira (na verdade, um tipo de piscina). Rhaluk se alimentava da energia do sangue do sacrifício. O sangue mesmo ia para a "piscina" abaixo da banheira, numa quantidade ilogicamente absurda. Ele era útil para os Æesires apenas para que soubessem quando a criatura-portal precisaria ser novamente alimentada.
Só então Tuomas poderia pegar o corpo de Wang, colocá-lo no baú e levá-lo para ser cremado no forno que tinham instalado há anos em um dos porões.





Sunset Valley. Mesmo dia (mas à noite).
Segunda. 20h30min.


Agitada que era, Laura não aguentou ficar sentada por muito tempo no banquinho. Disse que queria ir para o parquinho infantil que tinha no Parque Central. Era novo. O prefeito tinha inaugurado o parquinho há pouco no local, junto com o novo banheiro público, já que o antigo era motivo constante de reclamações do povo da cidade. Mas João Victor já tinha imaginado que ela não iria querer parar quieta e já tinha deixado combinado com Nooa de que ele a levaria para lá, onde o próprio João a pegaria bem antes das 21h. E foi o que o Styrman fez.


- Laura, mais alguma dúvida? Fala logo porque não estou a fim de te ver de novo, pirralha.
- Nooa, Nooa. Você é muito malcriado, sabia? – Ela riu, subindo no escorregador.


- Eu estou falando sério! – E ele realmente estava falando sério, embora a menina estivesse achando a cara dele engraçada.
- Olha, já te falei sobre muita coisa. O que mais você quer saber? E vamos logo que não tenho tempo.
- Me fala dos Caçadores!
- Tá. Vou resumir. Os Caçadores são uma Organização governamental secreta. Caçamos e eliminamos criaturas sobrenaturais de outros planos que se encontrem aqui. – Ele disse, meio impaciente.
- Como elas vieram parar aqui? De onde elas são?
- São de outros mundos. Mundos perigosos, desconhecidos. Elas estão aqui porque existiam portais conectando o mundo delas ao nosso. Mas nossa Organização conseguiu fechar todos eles para nos proteger, há alguns séculos atrás. As criaturas que ficaram, nós tratamos de eliminar.


- Mas Max me disse que existem os Inumanos aliados!
- É verdade. Mas não podemos confiar neles. – “Odeio o Max.”, Nooa pensou pela nona vez na noite. – Os Inumanos que possuem “negócios”, “acordos” com o governo, são os que estão sob as ordens de Corann. Corann é o líder da chamada “Sociedade Fria”.
- E qual o acordo? – Ela escorregou, dando risada.
E nessa hora ele sorriu, lembrando-se da irmã, Tuuli. “Tomara que dê tempo d’eu ligar para ela quando eu chegar em casa hoje.”, ele pensou.



- Uma das cláusulas do acordo é que se eles andarem na linha, não serão caçados. Mas há muitas outras. Mas o resto, quando você estiver maior, pede para o Max te contar. - “Nooa: 1. Max: 0”, ele pensou, feliz por dentro.
- Aposto que você não sabe mais sobre o acordo. – Ela olhou para ele, rindo.
Mas ele sabia. E realmente deixaria alguma coisa para o Max fazer.
- Jogo psicológico barato comigo não rola, pirralha.
- Nossa, como você é chato! Mas me diz, os Inumanos conseguem nos identificar?
- Não. Um Inumano só vai reconhecê-la como uma Desperta, ou como uma Caçadora, se você demonstrar que o vê como ele realmente é. Ou se você atacá-lo sem usar uma máscara e ele sobreviver.
- Vocês usam máscaras para eles não reconhecerem vocês?
- É. E quando você estiver preparada, a Organização Heng vai te chamar para você se tornar uma Caçadora Nível Mestre.
- Você e sua equipe são apenas Caçadores normais, né?
- Não. – Ele mente.
- Não foi o que o Max disse...
- O Max não sabe de nada! - Nooa fechou a cara.


- Nooa, me fala mais dessa “Sociedade Fria”.
- Como eu te disse, o Corann é o líder deles. E eles têm a obrigação de nos informar sobre quaisquer Inumanos novos que apareçam por aí. Mesmo porque eles podem criar novos vampiros, mas são proibidos de fazer isso.
- Mas aposto que fazem, não é?
- É. De vez em quando surge um desses por aí que não sabe nada sobre a “Sociedade Fria”, que não lembra como tornou-se um deles e que adora usar seus novos poderes e matar Sims. Aí nós tentamos arrancar informações deles e depois nós os eliminamos.
- Eles podem criar vampiros, nós não podemos criar Caçadores. Eles são imortais, nós não. Eles possuem poderes; nós não... – Ela disse. – Parece que estamos em desvantagem...
- Alguns Despertos desenvolvem alguns poderes depois que passam pela Heng. Mas então! Os Inumanos são assassinos frios e cruéis. As únicas coisas que matamos são monstros como eles. Eles não têm escrúpulos. Nós sabemos que podemos confiar uns nos outros. Nós não podemos criar Caçadores, mas assim que descobrimos um Desperto, lhe oferecemos a alternativa de ser tornar um de nós, de ser alguém melhor e usar seu poder de enxergar monstros para proteger as pessoas. Fora que os poderes deles não nos atingem. Por isso geralmente os mais sem noção dos Inumanos tentam descobrir quem são os Caçadores e tentam atingir seus familiares. Obviamente isso é pedir para ser destroçado depois.
- Mas você não vai se encontrar com um deles em um local público agora? Não vai mostrar sua cara?


- Eles não mexem com representantes oficiais dos Caçadores. E nem nós tocamos nos representantes oficiais deles. Mas é por essas e outras que estamos sempre vigilantes. Tentamos sempre pegar os vampiros não registrado antes da Sociedade Fria os encontrar; pois se eles os encontram primeiro, eles os protegem. E é também por isos que tentamos encontrar os Despertos antes deles, pois se eles encontram um Desperto antes de nós, esse Sim e sua família podem entrar em apuros.
- Nooa, por que eles matam humanos?
- Alguns Inumanos gostam da carne humana, ou do sangue humano ou simplesmente sentem prazer em torturar as pessoas.
- Eles todos são assim?... – Ela disse, meio amedrontada.
- A maioria...
- E eles se alimentam, andam de dia?
- É mais difícil para vampiros andar de dia. Mas os mais antigos, dizem que eles conseguem. E alguns deles podem até comer alimentos normalmente, sem nenhum problema, mas o instinto monstruoso deles dificilmente deixa passar uma oportunidade de saciar sua fome bestial atacando Sims, saca?
- Eles brilham se saírem de dia?
- Não seja ridícula!
- Você tem pena deles, Nooa?
Ele calou-se repentinamente. A pergunta dela o pegou de surpresa.


- Pena... Pena deles?
- É... Eles já foram humanos, né? Deve ter sido horrível eles terem se tornado algo assim...
Então ele ficou bastante sério e disse:
- Laura, nem todos eles já foram Sims. Os mais antigos e poderosos Inumanos vieram do mundo natal deles. E aprenda isso: a bondade não deve ser desperdiçada com aqueles que não a merecem. E eu espero que um dia você compreenda isso.
- E você se acha melhor do que eles?
- Sim. Eu não costumo estripar velhinhos e crianças só para me divertir.
- Oi, vim pegar a pequena. – João Victor chegou na praça.


- Toda sua. Pode levar o pacote. – Nooa disse.


João riu. Sabia que o amigo não “curtia dar uma de babá”. A onda de Nooa era saber quando ele começaria a bater e eliminar os Inumanos “de verdade”, aqueles mais perigosos, e saber quando a Organização Heng iria chamar o grupo dele para Shang Simla.
- Olha, Nooa, até que você é legalzinho. – Laura riu. - Talvez eu repense ficar no teu grupo em vez de ficar no grupo do Max.
- Nem pensar. Meu grupo está lotado. – Ele disse rapidinho.


João Victor só riu:
- Vamos nessa, Laura! Boa sorte lá, Nooa. Qualquer coisa, já sabe: Alessa e Léo estarão no local marcado.
- Beleza. – Ele disse.


João Victor e a garotinha se mandaram dali, no VácuoVago P328, o carro branco do Jão.


E Nooa foi para o seu próprio carro, onde trocou de roupa rapidamente e foi ao encontro de Ichiro no Bistrô.







Ichiro Nakamura chegou pontualmente à reunião com Nooa Styrman.


Os dois se cumprimentaram e entraram no Bistrô. Seguiram para a área VIP do local, onde uma mesa, reservada previamente, os esperava.



O lugar estava lotado de gente da alta sociedade local. A decoração incluía árvores artificiais, estátuas caríssimas, obras-de-arte nas paredes. Era o restaurante da moda no momento.
Os dois sentaram, pediram Dim Sum e uma garrafa de um dos melhores vinhos disponíveis ali (um "Réserve des Célestins").




 
- Então,... – Ichiro iniciou a conversa. – Você é o novo representante dos Caçadores.


- Exato.
O antigo era Max, o Caçador que Nooa não se dava bem.
Nooa já havia visto Ichiro uma vez, em um vídeo em que aquele vampiro aparecia lutando contra Caçadores. Ichiro havia sido filmado sem saber, para que os outros Despertos estudassem seu modo de luta e não fossem pegos de surpresa por seus golpes.
Uma das regras do acordo entre o Governo e a Sociedade Fria era que os representantes dos dois lados não poderiam ser atacados nunca, caso contrário haveria guerra.
- Então,... Qual o recado? – Ichiro analisava-o. Nooa podia sentir isso.


Então o Styrman passou uma foto para o representante de Corann, dizendo:
- Bárbara Andrade. Fez duas vítimas. Eles querem a cabeça do tutor dela. Nada menos do que isso.
- A “Sociedade” não pode ser responsabilizada pelas atitudes de qualquer um que apareça por aí.


- Bem, Ichiro, não sou eu quem faz as regras. – “Por mim vocês todos seriam mortos.”, Nooa pensou.
- Corann está bastante descontente com esse tipo de conduta de vocês. – Ichiro testava, queria ver quais seriam os tipos de resposta de Nooa.


- Bem, se ele está contente ou descontente não é problema meu. Se ele não mandar a cabeça do tutor dessa mulher para o João Victor vocês terão problemas.
- Então é só esse o recado?
- Exato.



- E você não acha perigoso ser um Caçador? – Ichiro perguntou.
- Digamos que sou daqueles que gosta do que faz. – Nooa respondeu, dando uma discreta intimidada nele.
- Sabe que poderia ganhar o respeito de Corann.
- Vamos parar com o assunto aqui e agora, Ichiro. Sou incorruptível.


- Todos têm um preço.
- No seu mundo. Não no meu. Além disso, acha que colocariam qualquer um para representá-los? Alguém facilmente “manipulável”? Não creio que seja tão inocente. – Nooa se sentia extremamente desconfortável na companhia de Ichiro, mas precisava ficar e não deixar transparecer isso, por isso deveria seguir com o jantar até o final. E assim o fez, sob as olhadas enigmáticas e curiosas de Ichiro.





Terça. 01h10min da manhã.


Nooa chegou tarde em casa, o que o deixou um pouco chateado, já que queria ter tido tempo para ligar para a irmã.



Mas foi tomar um banho, colocou o pijama e se largou na cama. Ficou assistindo um pouco de TV até dormir. Tentava não pensar no quanto não gostou de Ichiro.




E algo lhe dizia para ter cuidado, muito cuidado.






Segunda-feira. 03h50min da manhã.
Riverview.


Tudo tinha ficado escuro... Os sons tinham ficado cada vez mais longe...
Então ele começou a ouvir uma voz... Uma voz estranha... E ela se aproximava rapidamente, a ponto de parecer que alguém lhe sussurrava:
- Daniel!... Daniel!...
Ele não conseguia responder.
- Você tem algo que é meu, Daniel!... – A voz parecia longe, quase um eco.
Ele estava confuso. Não conseguia pensar em nada. A voz o chamava.
- Daniel, quero o que é meu!...
E um clarão atingiu sua mente.
Começo da semana passada. Aula de Ciências. O professor Kustaa Kangas estava na sala, passando uma atividade para a turma dele.



Se ao menos eu tivesse coragem de dar um oi...”, Daniel pensava, enquanto fazia a lição. Tentava se concentrar, mas não conseguia.



E o tal “oi” nunca saía. O primo dela, Aake, marcava pesado, sentava do lado direito dela. Enquanto que do esquerdo, só a parede. “Oh, parede de sorte...”, pensava Daniel.



Então ele escrevia. Escrevia músicas para Tuuli, olhando para ela, que nem o notava.



No intervalo, menos chances ainda. Ele não fazia parte da turma dela.
Ficava observando de longe, tentando ser discreto e imaginando se um dia ele também poderia ser visto como alguém “legal”. Mas do que precisaria para isso acontecer? Ter muita grana, ser boçal, tratar quem era diferente deles mal? Hmmm... Não. Daniel não poderia nem queria ser assim.


Mas a Tuuli parecia ser tão doce... Ele nunca a viu destratando ninguém... Será que ele estava enganado e ela era igual a eles? Ele colocou na cabeça que ainda iria descobrir. E por enquanto continuava olhando de longe, escrevendo canções e sonhando acordado, sentindo ciúmes de cada carinha que chegava perto dela e vibrando cada vez que Aake colocava um deles para correr.




Naquele dia, no intervalo, ele estava meio triste.
Estava cansado de se sentir “invisível”. Estava cansado!
Quando todos voltaram para a sala, ele ainda se permitiu ficar uns instantes lá fora, pensando em como o mundo era injusto, porque ele tinha que ter nascido com aquela “estúpida” tendência para engordar, sem grana, sem a aparência que agradaria a garota que ele queria, entre outras coisas.
Preparava-se para voltar para a sala, antes que alguém o pegasse ali fora, quando algo perto da cerca chamou sua atenção.


Aproximou-se.








- ME DÊ O QUE É MEU, DANIEL!!!





[Continua na próxima segunda! :) ]


Hi, amigo Simmer! Obrigada por acompanhar essa história!
Tenha uma ótima semana! :)


Como não tenho mais nem o TS3 instalado, e como essa história foi escrita há alguns anos, não sei onde baixei, na época, todos os Sims e CPs (“conteúdos personalizados”) utilizados. Mas que fique registrado aqui meu agradecimento aos criadores! Thank to the creators! :D



2 comentários:

  1. Se eu amei? adorei esse capítulo, explicou MUITAAS coisas! Ansioso pelo próximo!

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    1. Weeeeeeeeeeeeeeeee!!! Muito feliz que tenha amado!!! Isso realmente me deixa mega feliz! Obrigada pelo comment, Leo!!! Segunda que vem tem mais! :D

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